As mulheres que comandam times de futebol

Apesar de nos últimos tempos garantir resultados muito melhores do que a equipe masculina em mundiais, levar medalha de ouro em dois Pan-americanos seguidos (2003 e 2007), ser tricampeã do Torneio Internacional da Cidade de SP, ter uma jogadora premiada como melhor do mundo pela FIFA por cinco vezes consecutivas (Marta), os bons números não ajudam a alavancar o crescimento do futebol feminino no Brasil.

A Seleção feminina é competitiva e está entre as melhores do mundo desde 1996. Mas, internamente, o número reduzido de equipes não é suficiente para revelar novos talentos nem dar condição de estabelecer uma carreira. Além de pouco investimento, algumas atletas precisam jogar fora do Brasil para conseguir destaque. Felizmente, há quem resista às adversidades e mostra que é possível mudar esse cenário. Conheça um pouco da história não de uma, mas de quatro técnicas de futebol que fazem a diferença, vencem dificuldades e, cada uma com sua trajetória, mostram que mais do que nunca, o comando do futebol, dentro e fora das quatro linhas, também é feito por elas.

Faz muito tempo que futebol não é só coisa de meninos. Conheça um pouco da história não de uma, mas de quatro técnicas de futebol que fazem a diferença e mostram que o comando dentro de campo também é feito por elas.

AS TREINADORAS

Lindsay Camila

, 30, é de Campinas (SP). Teve uma infância muito ativa e começou jogando futebol com os primos até ser descoberta como um talento promissor. "Quando criança fiz ballet, sapateado e como estudei no SESI e lá tem bastante atividade física, fiz ginástica olímpica, natação e basquete. O futebol começou a ficar mais sério quando uma amiga do trabalho da minha mãe me viu jogando e me chamou para jogar no Time da Sanasa. De lá fui dando continuidade", lembra. Sanasa é a companhia de água e esgotos de Campinas. A entidade administra o Grenasa (Grêmio Esportivo e Recreativo dos empregados da Sanasa) e investe em diversas modalidades incluindo futebol e vôlei.

Depois do Sanasa, Lindsay jogou pelo Paulínia, Ponte Preta, São Paulo, Veranópolis e equipes internacionais como Boavista (Portugal), Puebla (Espanha), Compiegne, Saint Etienne e Lyon (França). No Lyon recebeu o convite para ser treinadora.

O desafio de passar de jogadora para treinadora passou por dificuldades com outros idiomas e preconceito por parte de outros treinadores. "Na época do Lyon o treinador de lá me perguntou o que eu achava de treinar as meninas do Sub 14, isso em 2007. Falei que sim, adoro desafios. Então dei início a minha formação de treinadora pela Federação Francesa de Futebol. Como era tudo em francês, eu até que conseguia separar tudo, pois em outra língua a tensão é maior. Mas quando voltei para o Brasil, fui trabalhar em Jaguariúna, com um time adulto e minha língua de origem, então, em algumas ocasiões, acredito que tive reações de atleta, mas coisa mínima como vontade de entrar em campo para fazer algo pela equipe. Quando estive em Dubai, em 2012, fui cumprimentar um treinador e ele se recusou por eu ser mulher e ter ganhado do time dele. Na França diversos treinadores entravam em campo acreditando que já estava como o jogo ganho. Eu sou do tipo de pessoa que não me importo se o treinador adversário irá me olhar como homem ou mulher. Acredito no meu potencial, gosto muito do que faço, então quando a gente gosta as coisas acabam saindo melhor ainda", afirma Lindsay. Atualmente ela está sem equipe para treinar.

Emily Lima, 32, nasceu e mora em São Paulo. Treinadora do Juventus há dois anos, ela é um dos atuais destaques do futebol feminino. Foi recentemente empossada como a nova técnica da seleção feminina sub-17 e já começou fazendo história. É a primeira mulher a assumir o comando de uma seleção nacional. Sua trajetória com o futebol também começou como jogadora. "Acredito que nasci pro esporte. Na escola gostava de praticar qualquer modalidade, mas a que mais sempre me chamou atenção foi o futebol. O futebol não entrou na minha vida, ele sempre esteve na minha vida. Comecei fazendo uma peneira no SAAD E.C. Joguei três anos lá e depois fui convidada pra jogar no São Paulo F.C. Fiquei três anos também. Depois joguei um ano no Barra de Teresópolis (RJ) e em seguida parti para o Rio Grande do Sul para jogar no Veranópolis E.C. Do Rio Grande do Sul fui pra Europa. Lá a caminhada foi longa, passei pelo Estudiantes (ESP), Prainsa Zaragoza (ESP), L`Estartit (ESP) e pra finalizar o Carpisa Yamamay (ITA)", relembra.

Sua passagem de jogadora para treinadora foi natural, mas envolveu lesões e uma aposentadoria precoce. "Graças a Deus a passagem foi natural. Por conta de seguidas lesões no joelho tinha que aceitar a aposentadoria mais cedo. Não aguentava mais treinar com dor e muito menos jogar. Senti que a dificuldade foi pela troca de papéis. É mais fácil ser atleta do que treinadora". E para ela treinar um time é muito mais que exigir habilidade e físico em dia. "Hoje as minhas principais responsabilidades são, cuidar da educação e caráter de cada atleta" diz.

Outro destaque na liderança de times, a paulista Miriam Soares tem futebol no sangue. Ela é ex-goleira da Seleção Brasileira e atualmente é Técnica de Futsal e Futebol Feminino e uma das treinadoras mais premiadas do interior de São Paulo. Natural de Ribeirão Preto (SP), ela tem 47 anos e é filha de Benedito Soares, ex-jogador de futebol do Botafogo FC nos anos 60. Sua carreira no esporte começou com outras modalidades. "Minha iniciação foi na Sociedade Recreativa de Esportes em Ribeirão Preto, aos 10 anos de idade. Fui apresentada ao Atletismo mais precisamente às provas salto em extensão, salto em altura (onde possuo um Record infantil 1,45m) e 110m com barreiras. Simultaneamente, aos 13 anos já praticava o Handebol e Basquete na Cava do Bosque e batia um futebol com os garotos da rua e meu irmão Marcelo Henrique nas ruas do nosso bairro, Campos Elíseos. Meu pai era treinador de futebol de uma equipe amadora da cidade e, como estava sempre grudada nele, aprendia tudo sobre futebol. Em 1978 fui convidada pelo treinador de uma equipe de futebol feminino da Usina Martinópolis da cidade de Serrana/SP, João Dias Corrêa, para fazer parte do grupo que ele dirigia e, com o incentivo do meu pai e a reprovação da minha mãe, eu fui. Aos 15 anos, depois de ter experimentado algumas competições nas modalidades esportivas as quais eu participava, optei por jogar apenas o futebol."

A escolha foi acertada. Como jogadora Miriam foi destaque em campeonatos nacionais e chegou a Seleção Brasileira. "Sai de Serrana/SP e fui jogar na Ferroviária de Araraquara, onde fomos vice-campeãs paulista por dois anos. Após a Ferroviária me transferi para o XV de Piracicaba e logo no ano seguinte ao SAAD São Caetano de onde fui para a Seleção Brasileira em 1989, quando houve a primeira convocação oficial da CBF de uma equipe feminina. As dificuldades de chegar até a Seleção foram muitas: estudar, ficar longe da família por meses, a falta de conhecimento de muitas comissões técnicas em como trabalhar com o feminino no alto rendimento. Na verdade, não existiam (e não existe até hoje) bibliografia especializada na formação da atleta de futebol feminino. O que usavam e usam são parâmetros buscados do futebol masculino. Essas sim foram as maiores dificuldades, além do preconceito em torno de nós, jogadoras de futebol", relembra a treinadora.

Mesmo com os problemas e a desilusão com alguns episódios na carreira, Miriam planejou a mudança de atleta para líder de equipe. Segunda ela, "foi muito bem pensada. Depois de muitas decepções e mentiras dentro da Seleção e nos clubes, foi muito difícil, mas a razão prevaleceu. Não foi fácil assumir o status de ex-atleta de seleção, mas felizmente tenho uma família que sempre me apoiou em tudo o que fiz e faço. Me propus a ensinar a desenvolver um conceito diferente de atleta de futebol, mas nem sempre nossos desejos e sonhos são realizados. Desempregada, de volta em Ribeirão Preto e com uma nova realidade, o que fazer? Resolvi virar a página de vez, fiz meu currículo como atleta e minhas qualificações e o levei ao Secretário de Esportes da época em Ribeirão Preto, senhor José Avelino. Ele, de pronto, me contratou como técnica de futebol e futsal, modalidades que não existiam na cidade. O inicio foi bastante difícil, pois eu era desafiada o tempo todo tendo que provar competência e profissionalismo. Trabalhando no meio de outros tantos ex-jogadores de futebol para mim foi um acréscimo muito significativo, uma troca de experiências bastante importante para mim. O fato de trabalhar diretamente com eles me ajudou muito a me tornar a profissional que sou hoje. Ter ao meu lado pessoas como Pitter (melhor zagueiro marcador de Pelé), Raul Pratalli (goleiro do Palmeiras por muitos anos), Paulo Cesar Camassutti ( atacante do Botafogo e Corinthians) é um privilégio."

A caçula desta turma é Rafaela Nicolete. Natural e residente em Americana (SP), ela tem 27 anos e tem interesse por futebol desde muito jovem. "Desde bem novinha, dois ou três anos, sempre pedi bola de presente para o meu pai. Participei de diversas modalidades esportivas, como judô, capoeira, ginástica, entre outras, até que os 10 anos, iniciei no futebol em um clube em que éramos sócios.", recorda. Mas o futebol rendeu outros frutos. "Joguei durante pouco tempo. Após a iniciação fiz um teste na equipe que representava a cidade (Grêmio Recreativo Ipiranga), aos 12 anos. Passei na avaliação e comecei a integrar o grupo, joguei lá até os 15 quando sofri uma lesão no tornozelo. No tratamento da lesão comecei a jogar tênis de mesa, onde tive algum destaque e acabei ficando na modalidade até o ano de 2012, como atleta."

O início da troca de atleta para treinadora, curiosamente, veio dos tempos do tênis de mesa e aconteceu naturalmente. "Desde quando comecei a treinar tênis de mesa já gostava de dar treino. Aos 17 comecei a cursar a Faculdade de Educação Física e a exercer a função de Preparadora Física na mesma equipe em que fui atleta. Então não tive muita dificuldade nessa mudança. Acredito que sempre tive aptidão mesmo para ensinar, que acabou se tornando uma paixão. Claro que ainda existe preconceito por ser uma técnica mulher, questionam um pouco sua competência, e isso não é só no futebol, mas como a equipe em um todo obteve resultados rápidos, tanto em títulos como na parte educacional, facilitou bastante a aceitação, e começaram a respeitar o trabalho."

EVOLUÇÃO DO FUTEBOL FEMININO

Apesar de governos e entidades não apresentarem muita vontade política nem monetária para promover as mudanças necessárias, elas mostram otimismo com o atual cenário do futebol feminino no Brasil.

"Hoje existem mais mulheres e meninas praticando futebol, sem necessariamente ter um 'cabelo curto ou jeito masculino'. Nós ainda estamos atrasadas quanto a formação de outros países, pois aqui não é rentável formar uma jogadora de futebol. Marta e Sissi são duas em muitos milhões. Temos ótimas atletas, mas rentável como essas não. Então o que os clubes ganham em formar atletas mulheres?", questiona Lindsay. E completa "taticamente estamos engatinhando, tivemos uma alta em 2007 e 2008 com os vice-campeonatos mundial e olímpico, mas o futebol evolui muito rápido e o que a quatro anos era bom, hoje já não ganha com tanta facilidade."

Rafaela concorda. Para ela "o futebol feminino evoluiu na aceitação, as meninas que fazem a prática colaboraram para essa evolução também, tendo mais disciplina, cuidando mais dá parte visual dá modalidade. Os investimentos melhoram também, apesar de poucas equipes investirem, as que tem estão investindo forte. Também acredito que tem mais pessoas querendo trabalhar com a modalidade e estudando para que ela evolua, em todos os aspectos (fisicos, técnicos, táticos, educacional)."

Mais envolvida com as atuais mudanças, Emily é mais otimista. "Não vejo preconceito em mulher técnica, o problema é a falta de mulher no comando. No Campeonato Paulista do ano passado tínhamos cinco técnica na competição, sendo que participaram 18 equipes. Já temos uma mudança que vai ficar marcada, uma mulher no comando da seleção brasileira. A evolução vem dentro de cada comissão técnica, e com certeza reflete nas atletas, e com isso conseguimos a melhora na parte técnica, tática, etc e assim conseguimos a evolução de qualidade da modalidade, os profissionais que trabalham no futebol feminino hoje buscam mais conhecimento da modalidade", conclui.

Miriam toca na ferida e fala de um dos principais problemas para a evolução do futebol feminino. Para ela, pouca coisa mudou de seu tempo como jogadora. "Creio que hoje o futebol feminino brasileiro sofre as consequências de ser administrado por uma entidade que não possui interesse algum de promover mudanças reais e investir no que é realmente necessário para a evolução da modalidade. O autoritarismo e hierarquia engessada da CBF atrapalha demais o desenvolvimento de nossa modalidade esportiva. Em 23 anos de futebol feminino nos pais, vejo que nada mudou e que o não aproveitamento do conhecimento adquirido das ex-atletas só faz com que andemos cada vez mais na contra mão da evolução do esporte." E aconselha: "Eu vejo o futebol feminino como um produto com um potencial de comercialização bastante grande, mas é necessário como um todo e não como fazem hoje. A falta de ações planejadas pela CBF, Federações, COB, Ministério dos Esportes, aumenta ainda mais as dificuldades das atletas já praticantes hoje e das que ainda sonham em ser uma jogadora profissional de futebol. Uma das maiores dificuldades é a falta de perspectivas de futuro, pois sem competições não existem clubes, e os clubes sem mídia não tem interesse em montar as equipes e sem essas equipes as atletas se veem obrigadas a deixar de lado o sonho começar a trabalhar em outras áreas."

A falta de perspectiva, de continuidade e investimento são outras observações que Emily faz em relação aos problemas que a modalidade enfrenta. "Acredito que a maior dificuldade é a preocupação de ficar desempregada e deixar de fazer o que mais ama. Todo final de ano é um desespero, você não sabe se haverá equipe no ano seguinte."

SER LÍDER DE UMA EQUIPE DE FUTEBOL

Todas são unânimes em dizer que estar no comando de uma equipe de futebol é mais do que driblar dificuldades e preconceitos. É uma missão que amam desempenhar.

Lindsay fala disso com bom humor."É engraçado, pois aqui no Brasil a primeira equipe que trabalhei eu era treinadora, "preparador" físico e "treinador" de goleiras. Na teoria do futebol treinador é quem manda, mas não era bem assim. Decidíamos todos juntos, era engraçado", ri e revela projetos futuros. "Amo muito o que faço e estou sempre tentando aprender. Hoje posso dizer que a beleza disso tudo é fazer o que amo, minha profissão, o futebol. Meu sonho é um dia treinar um time masculino. Isso sim será algo maior ainda dentro do futebol."

A veterana Miriam fala da realidade da modalidade e das treinadoras no país com os pés no chão. "Amo o que faço e faço com muito prazer, garra e respeito aos profissionais que colaboram comigo. Temos no Brasil poucas mulheres técnicas de futebol, mas tenho certeza que essas poucas já fazem a diferença. Acredito que em um futuro não muito distantes esse número aumente gradativamente se nossos dirigentes se propuserem a tratar o futebol feminino como uma modalidade esportiva Olímpica de verdade. É preciso parar com os 'achismos' e partir para a realidade, tratar essas meninas com respeito, profissionalismo e acima de tudo com verdades e não mais com esse amadorismo que vemos em todo o país. As mudanças devem vir de cima para baixo e não ao contrário; tem que iniciar na FIFA (tornando o futebol feminino profissional como o masculino), a CBF (desenvolvendo ações positivas para a massificação do esporte), as Federações (apoiando os clubes e criando mecanismos de promoção de eventos e competições em todas as categorias). Eu ainda tenho um sonho de poder responder positivamente a seguinte questão levantada por meninas que praticam o futebol: 'Professora, será que um dia eu vou conseguir dar uma casa para a minha mãe sendo uma jogadora de futebol? '".

Ela ainda fala de outro desafio das treinadoras de futebol e de todas as trabalhadoras ao redor do mundo: o acúmulo de funções dentro e fora de casa. "A dupla jornada para nós mulheres é o que mais pesa dentro desse contexto, pois sou especialista no que faço e para me manter no mesmo nível dos homens eu preciso estar sempre atenta, me atualizar sempre, participar de congressos e cursos mais específicos e não é fácil conciliar isso tudo. Tenho uma rotina bastante disciplinada, que no geral só muda em períodos de competições, mas mesmo assim tenho pessoas importantes em minha vida que me ajudam muito", conclui.

Ainda que muitas delas queiram ultrapassar definitivamente a barreira do preconceito treinando uma equipe masculina, Rafaela acredita que é mais fácil para uma mulher liderar uma equipe feminina. "Ajuda muito, pois mulher entende com mais facilidade mulher, sabe das dificuldades e como devem ser tratadas. Acredito que o preconceito e o machismo sempre acaba sendo quebrado no momento em que você demonstra respeito, seriedade e competência em seu trabalho, após esses paradigmas serem quebrados a credibilidade vai aumentando e isso facilita muito na evolução na modalidade, visibilidade, divulgação e mídia."

Com a responsabilidade de comandar um time que já representou, Emily acredita que o grande desafio de ser treinadora é o mesmo que enfrenta, infelizmente, mulheres em tantas outras profissões: mostrar valor e capacidade muito além do que um homem tem ou deveria fazer. "Não há vantagem nenhuma, muito pelo contrário. Temos que trabalhar muito mais por conta de ser um esporte tão masculino e um país tão machista. Temos que provar cada dia uma coisa diferente."

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