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Vídeos íntimos, “revenge porn” e lei proposta por Romário

Você apoia quem espalha vídeos íntimos na web? (Foto: iStock)Na hora do sexo vale tudo. Vale tirar toda a roupa ou só dar aquela levantadinha na saia. Vale deitar na cama ou ficar sobre a mesa. Vale guardar todos os segundos na memória ou esquecer no dia seguinte do que rolou. O importante é que tudo que aconteceu só interessa aos envolvidos.

E por envolvidos estou falando de quem participou ativamente do sexo. A roupa, a calcinha, as posições, as preferências e os fetiches. Tudo isso só diz respeito a quem estava transando naquele exato momento. Então por que temos visto tantos vídeos e fotos se espalhando pela internet?

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O que você tem com a vida sexual alheia?
A quem interessa uma mulher submissa?

A resposta é simples: porque as pessoas não têm ética. É muito fácil reclamar do governo, das empresas, da polícia. Dizer que ninguém age como deveria, que ninguém presta e, então, apoiar uma pessoa que invade assim a intimidade alheia. Você apenas está sendo tão podre – ou mais – do que aquele que critica. E aqui não há meio termo.

Quem faz o vídeo ou tira as fotos não é a pessoa errada. Ela estava se divertindo naquele momento e a tudo fazia parte do contexto. O problema é tirar essas coisas do contexto em que foram criadas. E repassar esse tipo de material faz de você uma pessoa tão horrível quanto quem as divulgou em um primeiro momento.

Por que as pessoas divulgam esse tipo de material? Revenge porn!
Normalmente por dor de cotovelo. Olha só que coisa incrível. Na maior parte dos casos, o cara que coloca as fotos da menina na internet foi deixado. Ou traído. E então resolve se vingar mostrando que eles faziam sexo.

Ei, calma aí, fazer sexo não é errado. É gostoso e a maior parte das pessoas adoraria fazer mais. Então por que as garotas que aparecem em vídeos e fotos são tão julgadas? Porque se entregaram ao momento e tiraram o máximo de prazer que podiam? Porque foram burras ao se deixar filmar/fotografar? Nada disso. Apenas porque são mulheres e é uma delícia julgar o outro.

O fim de um relacionamento deixa marcas, mas esse tipo de atitude é um primeiro passo para o que chamam, erroneamente, de crime passional – que não tem nada com amor, já que quem ama não machuca o outro de nenhuma forma. Hoje é o vídeo, mas se a pessoa pudesse teria matado a outra. Mas, espera aí, em grande parte dos casos, a pessoa realmente acaba se matando. E o culpado é, sim, quem divulgou aquilo.

Tem como evitar?
É claro que os caminhos são muitos e deixar de confiar em todas as pessoas do mundo e nunca mais fazer sexo é uma opção. Mas não é nada inteligente ou real.

A melhor maneira de mudar o que vem acontecendo constantemente é apontar para o culpado de verdade: a pessoa que divulgou o material sem consentimento do outro. E fazer com que a lei seja cumprida. Se o sexo tivesse sido feito sem consentimento seria estupro. Se as imagens do sexo são divulgadas sem consentimento podemos considerar um “estupro tecnológico”? Acho que sim.

Tudo no sexo deve ser consensual. TU-DO. Nada é decidido por apenas um dos envolvidos e não cabe a quem está de fora escolher um lado para apoiar. Estar do lado de quem “vaza” as fotos e vídeos é apoiar o estuprador. Essa é a pessoa que você quer ser?

E quem compartilha esse material é tão errado quanto quem começou com a babaquice. Você, ao repassar esse conteúdo, se torna uma daquelas pessoas que apenas olhou o estupro coletivo na Índia e não fez nada. Você é tão culpado pela morte dessas mulheres quando quem traiu sua confiança.

A lei
Em outubro, quando tivemos um aumento significativo do problema, o deputado federal Romário – sim, aquele que era jogador de futebol e está fazendo um belíssimo trabalho na política – apresentou um projeto de Lei que torna crime a divulgação indevida de material íntimo.

O acusado, de acordo com o projeto de Lei 6630 de 2013, terá pena de até três anos de prisão e deverá indenizar a vítima por seus gastos com mudança de casa, de escola, tratamentos médicos, psicológicos e perda de emprego. Sim, ela terá que passar por tudo isso. A sociedade adora chutar cachorro morto.

E quando comprovado que a pessoa que divulgou o material teve um relacionamento amoroso com a vítima, o crime será agravado e a pena ganha mais 50% de tempo. Isso também vale para vítimas menores de 18 anos ou deficientes.

Qual o seu papel nessa transformação?
Parar de julgar o outro. O que melhora na sua vida quando você humilha uma pessoa? O que melhora quando você assiste um vídeo de sexo que sabe que causou a morte de alguém? O que acrescenta à sua vida julgar o comportamento sexual de pessoas que você nem imagina quem sejam?

Com ou sem amor, a vida é de cada um. Grande ou pequeno, ninguém tem nada a ver com isso. Papai e mamãe ou de quatro, pessoas adultas fazem o que querem e o que é consensual.

Nada disso diz respeito a você. E ser parte de uma rede de culpados pelo suicídio de uma pessoa deveria pesar bastante em sua consciência.

Você tem alguma dúvida sobre sexo? Manda para mim no preliminarescomcarol@yahoo.com.br e siga-me no Twitter (@carolpatrocinio).


Festa Junina

Sobre Carol Patrocínio

Jornalista, passou por revistas impressas e pelos maiores portais do país. O interesse por escrever sobre sexo, comportamento e relações surgiu ao notar que essas informações poderiam melhorar a autoestima das mulheres e a percepção de si mesmas. Acredita que, muito mais do que prazer, sexo é autoconhecimento. Carol escreve no Preliminares desde dezembro de 2011.