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Preliminares responde: homem tem obrigação de querer transar sempre?

"Oi, Carol, tudo bem? Gosto muito das suas postagens!
Não sei se você pode me ajudar, talvez minha dúvida seja mais sobre relacionamento do que sobre sexo, desculpe. Vou tentar resumir: tenho 23 anos, tive um namoro complicado, com muitos vai e volta por quase 6 anos e nunca transei com outro cara.
Um tempo atrás conheci um rapaz de 17 anos e começamos a ficar. O problema é que talvez EU tenha sido muito imatura e, de certa forma, o pressionei para transarmos logo.
Ele me disse que tinha "problemas de ereção", que não conseguia mantê-la depois do "momento de pico" (palavras dele) e eu disse que era normal, que é assim mesmo. Até perguntei se ele era assexuado, porque ele disse que não sente tanto prazer, mas disse que não.
Não cheguei a comentar, mas imagino que o problema dele seja ejaculação precoce, o que, creio, seja um tanto normal pra idade dele.
O fato é que fiz umas brincadeiras meio sem-graça e ele não gostou, aí não quis mais nem ficar comigo. Ou talvez eu tenha sido um tanto machista, quis dar uma de "mulher livre", que fala suas vontades, mas talvez tenha pensado que, por ele ser homem, tinha "obrigação" de querer transar logo.
Estou arrependida, pensei em pedir desculpas pelo que falei, mas sem insistir pra continuarmos ficando..."

Essa pergunta mostra um lado que nem sempre abordamos aqui: quando a mulher passa dos limites. A gente está acostumado a falar sobre a garota que não está pronta para transar, sobre o cara que força a barra e nos esquecemos de que isso também acontece com os papeis trocados.

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Muitas mulheres não conseguem respeitar o tempo do namorado e acabam abusando emocionalmente do parceiro. E é claro que isso gera reflexos físicos.

Da mesma maneira que sempre digo que o homem deve respeitar as vontades e desejos da mulher, o contrário é válido.

Vivemos numa sociedade que cobra pureza feminina e virilidade masculina. As maiores manifestações de que as coisas não funcionam bem assim são os caras que deixam claro que não estão prontos/com vontade de transar e as mulheres que resolvem não manter seus desejos escondidos.

"O problema é que talvez EU tenha sido muito imatura e, de certa forma, o pressionei para transarmos logo"
Perceber que você agiu dessa maneira e se policiar para que isso não aconteça de novo já é um bom começo para resolver tudo isso. Respeitar a pessoa com quem estamos dividindo momentos de intimidade é uma das coisas mais importantes de qualquer tipo de relacionamento. Mudar está na sua mão.

"Ele me disse que tinha "problemas de ereção", que não conseguia mantê-la depois do "momento de pico" (palavras dele) e eu disse que era normal, que é assim mesmo. Até perguntei se ele era assexuado, porque ele disse que não sente tanto prazer, mas disse que não"
Momento de pico seria o orgasmo? A ejaculação? Se for isso, é realmente normal, para qualquer homem ou mulher. Depois desse momento o corpo relaxa e ai não consegue manter a ereção. Por isso é que não é legal quando o homem goza antes da mulher. Quando é o contrário, ela ainda conseguem aproveitar o sexo, mas o homem não tem mais condições de continuar a penetração.

Se ele fosse assexual — assexuado é quem não tem sexo, o que é impossível — não teria o tesão inicial. Não tem ligação com prazer, mas com interesse e desejo. Dá uma olhadinha no texto que escrevi sobre isso: "Sexo? Não, obrigada".

"Não cheguei a comentar, mas imagino que o problema dele seja ejaculação precoce, o que, creio, seja um tanto normal pra idade dele"
Ejaculação precoce não é normal em idade nenhuma, na verdade. Dá pra entender que um garoto de 17 anos, que ainda não tem tanta experiência, sofra mais com o problema, mas não deveria. Se ele tem ejaculação precoce deve procurar ajuda ou tentar controlar melhor o corpo e a mente na hora do sexo.

"O fato é que fiz umas brincadeiras meio sem graça e ele não gostou, aí não quis mais nem ficar comigo. Ou talvez eu tenha sido um tanto machista, quis dar uma de "mulher livre", que fala suas vontades, mas talvez tenha pensado que, por ele ser homem, tinha "obrigação" de querer transar logo"
Brincadeira sem graça, nesse contexto, me faz imaginar um caso de agressão psicológica — escrevi sobre isso aqui, olha lá: "Agressão psicológica também é crime" - estou certa?

Esse tipo de agressão, normalmente, é tão aceita socialmente que ficamos na dúvida se realmente passamos do limite e ter posturas machistas acaba fazendo parte disso tudo. Fomos ensinamos — e somos lembrados disso todos os dias — que homens devem fazer sexo sempre e mulheres devem ser "santas" na rua e "putas" na cama (seja lá quais forem as atitudes que comprovem isso).

Pressionar alguém para transar é sempre ruim. Não faz bem pra pessoa, o sexo nunca é realmente bom e todo mundo fica desgastado com isso.

Ele não tem obrigação de transar, assim como você não tem. Ninguém, na verdade, tem obrigação de nada, tudo deve acontecer de comum acordo e sem pressões. Se você notou que pode ter feito isso, fique bastante esperta no seu comportamento para que não se repita.

"Estou arrependida, pensei em pedir desculpas pelo que falei, mas sem insistir pra continuarmos ficando..."
Não acho que você deva pedir desculpas para que vocês voltem a ficar. Acho que você deve pedir desculpas e pronto, sem interesses, apenas por ser a coisa certa a fazer.

Não dá pra saber se esses foram os motivos que o fizeram desistir de você ou se eles apenas contribuíram. Na verdade, isso não importa. Nesse momento o que mais importa é você enxergar seus erros e ter um tempo para pensar em como não repeti-los.

Depois disso pode ser que ele a veja com outros olhos e a consequência seja querer que role algo. Pode ser que não.

Antes de entrar em outro relacionamento acho que você deveria pensar em você, na sua postura, crenças, desejos e só então deixar que alguém faça parte da sua vida. Quando a gente se entende primeiro e sabe quais são nossas necessidades fica muito mais fácil fazer com que tudo dê certo.

Você tem alguma dúvida sobre sexo? Manda para mim no preliminarescomcarol@yahoo.com.br e siga-me no Twitter (@carolpatrocinio).

Sobre Carol Patrocínio

Jornalista, passou por revistas impressas e pelos maiores portais do país. O interesse por escrever sobre sexo, comportamento e relações surgiu ao notar que essas informações poderiam melhorar a autoestima das mulheres e a percepção de si mesmas. Acredita que, muito mais do que prazer, sexo é autoconhecimento. Carol escreve no Preliminares desde dezembro de 2011.

 

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