Amigo Gay

Sobre as (des)vantagens de ser amante

Você aceitaria ser a outra? (Foto: iStock)Chifre é uma das verdades inexoráveis da vida. Já fui duramente criticado por afirmar isso em outro texto. Mas digo e repito, sob o risco de ser atacado pelos moralistas ou desacreditado pelos românticos: mais cedo ou mais tarde todo mundo trairá ou será traído. Ainda que seja uma vez só. Ainda que não seja nada sério. O lance é tão parte da nossa cultura que criaram até uma data para homenagear o pessoal que de vez em quando resolve dar uma passeada pelo quintal do vizinho para conferir se a grama por lá é mesmo mais verde.

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A ideia inicial era escrever um texto com prós e contras de ser amante. Tanto para homens quanto para mulheres. Eu tentei, de verdade, encontrar um lado bom nessa história do ponto de vista do terceiro lado desse triângulo amoroso. Mas não deu. Mesmo. Eu, particularmente, acho que ser amante é a maior roubada do universo. Sério. Sou um cara bastante ciumento e a simples possibilidade de dividir meu objeto de desejo com outra pessoa me tira do sério. Ainda que eu seja a filial e, tecnicamente, esteja errado. No entanto, há quem dê conta de viver nessa espécie de clandestinidade afetiva.

Veja bem, ser amante é quase como estar em um relacionamento que não tem as partes mais legais de estar comprometido. Porque existe o tesão, o carinho e a vontade de viver milhares de coisas juntos. Mas nada disso pode ser vivido de forma plena porque há sempre a necessidade de se esconder e de disfarçar e o medo de ser descoberto.

É tipo quando você está apaixonada por um cara que só está a fim de te pegar de vez em quando. O papo é bom, o sexo é bacana, o sujeito é divertido e os momentos que vocês passam juntos são incríveis. Mas quando ele vai embora sem dizer quando volta, ou se volta, fica aquele vazio, aquela sensação de abandono. Quando você se envolve com alguém comprometido rola algo parecido. Porque dá a impressão de que você recebe o que sobra do outro. Talvez por uma mistura de insegurança, sentimento de posse e vaidade isso não me parece ser suficiente para fazer alguém feliz.

Gente, longe de mim iniciar uma caça às bruxas. Nada me irrita mais do que esse povo de vestido de florzinha e colar de pérolas que fica ditando regras sobre a vida afetiva e a sexualidade dos outros. Sou a favor da felicidade e acredito de verdade que o caminho para chegar a ela é bastante pessoal. Se você não se incomoda em ter encontros furtivos em horários inusitados ou não existir oficialmente na vida do outro, tudo bem.  Eu não consigo. Mas eu não sou medida de nada.

Nem vou entrar no aspecto ético dessa história toda, porque há pouco a dizer em defesa de quem aceita ser a outra, ou o outro. Sem moralismos, mas quem, assim como eu, já foi traído sabe o quanto dói. Não consigo encontrar argumentos que justifiquem um comportamento capaz de causar tamanho sofrimento a alguém. Claro que a culpa não é só da amante. Para ser sincero, acho que ela é mais vítima do que vilã. Mas vale a máxima do "quando um não quer dois não traem". Então convém ficar longe do bofe alheio, ainda que ele insista em ficar bem pertinho de você. Se não por respeito, pelo menos por medo. Porque dizem que a vida devolve tudo em dobro e chifre é que nem perfume do Avon: ainda que você use pouco, o estrago é sempre imenso. Imagine se vier em grande quantidade.

Sobre o autor

Arthur Chioramital é jornalista, ombro amigo e filósofo de boteco. Entre uma cerveja e outra, adora reclamar da vida e distribuir conselhos. Romântico não assumido, ele sonha em encontrar o príncipe encantado, mas não nega o valor que o Lobo Mau possui.

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