Alinne Moraes vai viver no teatro Doroteia, a prostituta que quer renunciar ao sexo e se tornar feia

 

 

RIO - Ela passou a se sentir suja por causa do sexo, como se fosse responsável pela atração que exercia sobre os homens. Culpa, medo e tristeza substituíram, em vários momentos, o que nela era alegria. A descrição não se refere à entrevista de Xuxa exibida domingo passado no "Fantástico", mas a Doroteia, a personagem de Nelson Rodrigues que Alinne Moraes interpretará a partir de 19 de junho, no Teatro Poeira.

A associação com as revelações de abusos sexuais sofridos pela apresentadora serve para mostrar que, embora integrando a série de quatro peças do autor classificadas como "míticas" (não vinculadas diretamente à realidade), "Doroteia", escrita em 1949, pode ter impacto efetivo sobre o presente. Teve, por exemplo, sobre Alinne, que se identificou com o texto há dois anos e decidiu encená-lo.

- Comecei a trabalhar cedo como modelo, com 12, 13 anos, e muitas vezes me vi como Doroteia: tentava me enfear para não chamar a atenção, andava sem salto porque era alta. Quando fiz minha primeira novela, me perguntavam se eu não sofria preconceito por ser bonita e atriz. Não entendia o que uma coisa tinha a ver com a outra. Dependendo de como você enxerga, a beleza é quase um fardo - afirma Alinne, hoje com 29 anos, no intervalo de um ensaio.

Na "farsa irresponsável" que Nelson criou a respeito da tensão feminina entre o desejo e as repressões sociais, Doroteia é a exceção em uma família cujas mulheres não conseguem enxergar homens, sentem náusea na noite de núpcias e vivem de luto. Sem problemas com o sexo, Doroteia decide virar prostituta e é feliz assim. Até que seu filho adoece e, para tratar dele, o médico exige o corpo dela como pagamento. Enquanto estão juntos, a criança morre.

- A partir desse momento, para Doroteia, sexo é culpa, morte. Essa é uma verdade da personagem que precisa ser contada. Não há farsa nisso - diz o diretor João Fonseca, que já encenou outros textos de Nelson ("O casamento", "Escravas do amor", "A falecida") e foi convidado por Alinne para a empreitada.

Atormentada, Doroteia decide se fechar para o sexo e procura sua família. Chega à casa sem quartos e sem homens em que moram as primas viúvas Dona Flávia, Carmelita e Maura, mulheres que têm, segundo a peça, "o corpo tão seco e tão magro" que não sabem "como há nele sangue, como há nele vida".

- É um centro de reabilitação sexual. Falo sempre para a Alinne: "Você é uma viciada em sexo que foi buscar um rehab" - ri Fonseca.

O diretor tem pela frente um dos maiores desafios de sua carreira: enfear Alinne Moraes. A missão quase impossível é necessária porque Doroteia, ainda exuberante em seu vestido vermelho no início da peça, vai mudando de postura e, no final, quando já nem as queria mais, recebe no rosto as chagas por que clamara antes.

- Quero que Alinne fique feia sem auxílio de nada, só com o rosto. Sei que é muito difícil. Mas é um desafio bacana para ela - acredita Fonseca.

- Ele já me avisou que tudo vai depender de mim, não vamos ter nenhum truque. Ainda não sei como vai ser - assume a atriz.

Ela também assume que não teria coragem ou maturidade para enfrentar "Doroteia" se não fossem as experiências vividas na TV nos últimos anos, principalmente a lésbica Clara de "Mulheres apaixonadas" (2003), a psicopata Sílvia de "Duas caras" (2007) e a tetraplégica Luciana de "Viver a vida" (2009) - que lhe rendeu o Prêmio Faz Diferença, do GLOBO. Quando veio para o Rio estrear nas novelas em "Coração de estudante", em 2002, a paulista de Sorocaba nunca tinha visto uma peça de teatro nem pensava em seguir carreira.

- Achei que era mais um trabalho de modelo, que eu ia realizar e acabaria. Depois, fui chamada para participar de "Os normais", emendei com outros, fiz vários cursos de teatro e não parei mais de estudar - relata ela, lembrando-se com orgulho do elogio feito por uma professora em função de "Mulheres apaixonadas". - Ela disse: "Pela primeira vez, vi uma cena sua em que, em vez de ficar enfeitiçada pela sua beleza, fiquei emocionada pela personagem." Foi importante, porque naquele início parecia que eu precisava ser uma atriz maior do que a minha beleza.

Seu primeiro e, até agora, único trabalho no palco foi "Dhrama", em 2007, algo de que ela lembra com emoção e forte autocrítica:

- Por mais que tenha sido lindo como primeira apresentação, eu ainda me sentia pouco confortável em cena, ainda me incomodava o tempo e o silêncio do teatro.

Para fazer "Doroteia" no ano do centenário do "anjo pornográfico" - como Nelson se intitulava -, Alinne recusou três projetos da Rede Globo (para onde voltará em novembro, na série "Como aproveitar o fim do mundo") e vem se dedicando exclusivamente aos ensaios. Ao lado dela estão Keli Freitas como Das Dores, Marcus Majella como Dona Assunta de Abadia e mais três homens representando as viúvas: Gilberto Gawronski (Dona Flávia), Alexandre Pinheiro (Carmelita) e Paulo Verlings (Maura).

- A peça fala em mulheres sem quadris. É difícil arrumar. E a opção por homens reforça o tom de farsa e o contraste com a beleza e a exuberância de Doroteia - explica Fonseca, que pensa em intérpretes masculinos desde 1998, quando, ao lado de Gawronski, ministrou um workshop sobre Nelson para a companhia inglesa Mabou Mines.

O diretor ainda cita os leques coloridos que Nelson indica para as viúvas como prova de que o autor não queria nada realista, já que não combinam com o luto constante.

- Doroteia é uma puta que fala na segunda pessoa do plural. Ou seja, saímos do lugar do "batata" - brinca ele, referindo-se a uma gíria muito usada por Nelson nas "tragédias cariocas", ligadas ao cotidiano.

Ao menos na primeira temporada, a peça ficará só um mês em cartaz e no horário alternativo (terças e quartas, às 21h), prova de que Alinne não quer posar de estrela.

- Sempre quando é menos, é melhor. Vamos devagar e sempre. É apenas mais um degrau - diz.

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